domingo, 3 de janeiro de 2016

Vim, vi e venci

Vim, vi e venci

Eis-me aqui
Eu excedi, transcendi
Fui ao extremo, ao limite
Da dor, da depressão, da traição
Do esgotamento, da ira, do escárnio, da desolação, da solidão  
A dor lancinante, o coração ofegante por pouco não me tiram a consciência
A carne rasgada, a cabeça perfurada por pouco não me tiram a razão
As moscas rondando as narinas, o sangue misturado ao pó, o meu próprio mau cheiro por pouco não me levam ao desespero
De fato, não é coisa pouca habitar um corpo humano
Eu sei que eu disse: “o espírito é pronto, mas a carne é fraca”
Quase sou obrigado a refazer, pois o espírito é fraco, e a carne está sempre pronta, pena que para o que é mau
Eis-me aqui, fruto disso
Por um instante, não mais que isso, estou preso
Atado, mãos e pés, por cravos cruéis
Dura coisa é não poder alcançar mais pessoas, falar com elas, curá-las, libertá-las
Dar-lhes um sentido de vida
Fiz-me igual a elas, pior, rebaixei-me ao mais baixo nível
Expus-me, nu, em espetáculo, em plena vileza
Neófitos não entenderão
Pusilânimes se acovardarão
Pois, por um instante, o inimigo parece ter vencido
Haja vista a festa, os risos
Breve sairei daqui
Para habitar um Trono e o coração dos meus
Breve a limitação física não mais será um obstáculo
Breve correrei mundos, qual dona de casa a varrer o chão em busca da moeda perdida
O farei por corações em que reinarei absoluto
Muitos há que, do alto dos seus próprios tronos, falarão em meu nome
Não os conheço  
Muitos há que, do alto de templos suntuosos, curarão em meu nome
Não os conheço
Muitos há que, do alto de púlpitos famosos, pregarão em meu nome
Não os conheço
Não terei representantes, não terei dirigentes atuando em meu nome
Eu mesmo, pessoalmente, me farei presente pelos corações em que reinarei absoluto
Esses, jamais, retrocederão, jamais se decepcionarão
Esses, qual seu Senhor, “tombarão, enfim feridos, mas não compactuarão”

Esses reinarão comigo para sempre  

sábado, 2 de janeiro de 2016

Nem dá...

Não é um ajuntamento de pessoas boas que faz daquele ajuntamento uma igreja. Por mais bonitas, sorridentes, simpáticas, amáveis que elas sejam.
Uma igreja para ser igreja tem que valorizar a pessoa, não o grupo. Pessoas são pessoas, o grupo aqui não vale tanto.
Qual a distorção? Em um grupo há sempre que ter um líder, um dirigente, e esse, por mais boa vontade que tenha em não fazê-lo, se interporá irremediavelmente entre as pessoas e Deus, o que não cabe na mensagem do evangelho.
Nós estamos falando de Senhorio, do Senhorio de Cristo que é o remédio para a humanidade. Só aqui há cura, só aqui as pessoas deixam de ser corruptas, só aqui as pessoas deixam de levar vantagem sobre as outras, só aqui as pessoas buscam o interesse do outro, só aqui se encontra o sentido da vida, só aqui há casamentos estáveis.
Fora disso é teatro, encenação, um jogo hipócrita de interesses, de projeção, em que conta o tamanho do grupo para destacar o seu líder.
Mas... e as pessoas? Com todas as suas particularidades, suas idiossincrasias? Oras... as pessoas! Elas são parte de um projeto, de um processo, de um plano, de um conjunto, de um organograma, de um calendário, de uma estatística, de uma fonte de renda.
Nem dá...
Eu preciso crer que há pessoas, ao redor do mundo, que vivem sob o Senhorio de Cristo. Eu preciso crer, senão eu morro.

domingo, 20 de dezembro de 2015

Onde estão eles???

Onde estão eles?
Cadê esse povo?
A gente de cá precisa urgente?
Somente eles para enfrentar esse atual e caótico estado de coisas.
Arregacem as mangas e à luta.
Gandhi já morreu. O Madiba também. O Martin foi assassinado. Betinho sucumbiu à doença. Assim... a gente de cá está por sua conta e risco. Como dizia o rei do pop: “they don’t really care about us” = eles não ligam pra gente.
Eles? Quem eles? A gente de lá, a gente do poder, da capital, das empreiteiras, do capital, do rentismo, gente de valor venal, do lucro incessante, gente sem moral.
Cadê vocês?
Não quero crer que as delícias do vil metal os silenciou?
Não quero crer que as perfumarias tecnológicas os inebriou? A uns e outros.
Se tem alguém que pode tocar na gente de lá,  são vocês? À luta.
Artistas e jovens, agora é com vocês. À luta, às armas. Não as de fogo que essas não levam a nada e eles podem mais. Mas... há outras tantas. E tenham por certo que exércitos os seguirão, de todas as idades e cores e classes e tribos.
Já deu. Basta. Chega.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Dos tijolos da igreja II

Você é um tijolo pequeno e por isso se sente insignificante, descartável, inutilizável? Você se acha desqualificado, incapaz por não ter as capacitações que chamam a atenção? Não, não se sinta assim. Não se sinta menor do que você é. O Pedreiro é muito capaz e dará uma boa utilização pra você. Bem verdade que Ele até tem certa predileção por tijolos pequenos. Lhe dão menos trabalho. Ele colocará argamassa onde precisar para preencher o que falta, posicionará você adequadamente e dará um sentido eterno para sua vida.
Enroscado mesmo está o tijolo grande, aquele que por seu ego inflado e por sua autoestima exacerbada não cabe na parede. Aquele, infectado pela doença do narcisismo em que de tanto amar-se a si mesmo, já não consegue viver sem a si próprio, como disse o poeta.
Tijolo grande é aquele que acha que está tudo sob controle, que acha que tem reposta pra tudo, que acha que pode tutelar o outro, que se acha muito capaz. A última cereja do bolo. O rei da cocada preta. A última coca-cola do deserto.
Tijolos grandes são um problema para o Pedreiro.
Tijolos grandes precisam ser moldados à força para caberem na parede. Um processo dolorido em que leva várias “colheradas” no lombo para que se adeque ao tamanho ideal.
Tomara que esse tijolo não seja tão duro, pois corre o risco de esfarelar-se por completo aos golpes da colher do Pedreiro, vindo a servir tão somente como entulho.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Dos tijolos da igreja

Uma das figuras da igreja é a de que ela é um edifício.
Pois bem, o pedreiro tem dois instrumentos para conferir a exata colocação dos tijolos para que as paredes fiquem perfeitamente acabadas.
Um é o prumo, o outro é a linha. Quem é do ramo entende e sabe que uma parede é geometria e matemática puras, e que paredes tortas comprometem todo o edifício.
O prumo confere e corrige o alinhamento vertical, a linha o faz na horizontal.
Para o alinhamento vertical o pedreiro usa os dois tijolos das extremidades superior e inferior das paredes, usando o prumo para corrigir tangências que possam levar a parede a sair do perfeito alinhamento vertical e que levaria a parede a cair.
Para o alinhamento horizontal, o pedreiro fixa a linha nos dois tijolos das extremidades laterais de forma que os tijolos do meio, ao seguir a linha, estejam alinhados com os tijolos das extremidades, o que garante o seu perfeito acabamento.
Oras! Alinhamento vertical aponta para o céu, para o relacionamento com Deus. Se esse alinhamento não for perfeito, a tendência da parede é cair dada a inclinação da tangência da parede, ainda que mínima. Redundância: um relacionamento desaprumado com Deus levará toda a parede ao chão.
Oras! Alinhamento horizontal aponta para o relacionamento com o irmão, ou seja, um tijolo não pode querer estar acima do tijolo ao lado, tampouco não deve fugir do alinhamento do prumo de forma a entortar a parede e comprometer tanto a beleza quanto a eficiência da parede. Redundância: o relacionamento com o irmão tem que ser linear, isto é, não pode haver desalinhamentos em que um esteja sobre o outro naquela fileira.

Não tenha dúvida, o experiente construtor lidará de forma absolutamente terminal com tijolos que teimem em escapar seja do alinhamento vertical, seja do alinhamento horizontal.     

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Eu, algoz de mim mesmo

Não, eu não resisto! Se a oportunidade se apresentou eu tenho que aproveitá-la. O importante é ser feliz, diz a ditadura da felicidade. 
Assim, mesmo em face do risco de pegar alguns anos de cadeia, o importante é garantir o futuro de meus filhos. Mesmo em face do risco de uma gravidez indesejada, inoportuna e prematura, o importante é desfrutar do orgasmo. Mesmo em face de ser ridicularizado na mídia, nas redes sociais, o importante é não deixar a oportunidade passar. Mesmo em face de ter minha traição conjugal descoberta, o importante é aproveitar o momento das delícias carnais. Mesmo em face de ser o protagonista de um espetáculo de horror pelos maus feitos de uma política tacanha e rasteira, o importante é ter o poder nas mãos e usurpar a ignorância das pessoas que acham que em ‘autoridade’ não se toca. Hitler adoraria viver nesse país. Mesmo em face de não ter a aprovação do Divino para minha atuação sacerdotal, o importante é “gozar” do destaque que as ingênuas turbas dão a essa classe.
Eu, algoz de mim mesmo, “fazendo o que não quero e deixando de fazer o que gostaria” (Paulo de Tarso).
Eu, algoz de mim mesmo, elevando a pós-modernidade ao mais alto grau, em que não há mais absolutos, sequer Deus, sequer a bíblia, em que cada qual faz suas próprias leis, suas próprias crenças.

Eu, algoz de mim mesmo, valendo para ambos os sexos.   

Ornitorrinco Madiba